sexta-feira, 18 de junho de 2010

Tatiana Parra cria divisor de águas em show no Sesc Pompéia

Tatiana Parra é, por gasta que seja a expressão, uma rara unanimidade no meio musical paulistano de agora. Quem faz música ou admira ou está envolvido com música sabe de sua afinação e bom gosto, dedicação e seriedade, da graça de seu misto de ingenuidade e malícia. Créditos que são, feitas as contas, indispensáveis a quem queira subir ao palco como porta-voz (e quem precisa de cantora que não seja porta-voz, afinal?).
Tanto assim que o primeiro disco de Tatiana vinha sendo esperado como grande acontecimento. Eventualmente, expectativa do tipo da que cercou o trabalho dela é frustrada. Quase sempre espera-se mais do que de fato vem. O caso de Tatiana é radicalmente oposto. Mesmo quem a conhece, quem acompanha seu trabalho – do tempo de backing vocal de cantores populares, do tempo de integrante da bela formação criada há alguns anos pelo compositor e violonista Chico Pinheiro (ao lado de Maria Rita, Luciana Alves...), do atual status de musa da nova geração de compositores da cidade – mesmo que bem a conhece levou um sopapo. Tatiana é muito mais do que a melhor expectativa poderia fazer acreditar.
E quem foi ao teatro do Sesc Pompéia ontem (quinta-feira, dia 18 de junho), viveu uma experiência-limite. Não assistiu ao show de lançamento do disco de mais uma boa cantora. Assistiu a um dos melhores espetáculos que o nobre teatro jamais abrigou. Viu brotar da garganta de Tatiana Parra a força e a maturidade de uma intérprete poderosa como há décadas nossos palcos não pariam.
Que ninguém se sinta diminuído com tais assertivas. O cenário da canção brasileira é muito bom (gosto de dizer que a cultura vai bem, quem vai mal é a indústria cultural – e a indústria cultural que se dane), mas faltava uma voz descolada de rótulos estilísticos, uma voz ampla, abrangente, que desse conta da fartura criativa de nossos autores (Tatiana é também ótima compositora, aliás), que desse o passo adiante – que não fosse a sucessora de Elis Regina (horrível, mas ainda se fala nisso) e sim o que vem depois de Elis Regina, aproveitando o que havia de melhor nela (e nas outras importantes como ela) para andar em frente, criar a fala nova, impor outros parâmetros, fazer nova diagnose de nossas dores e esperanças, das fraquezas e da pujança nossa, o coletivo Brasil, a questão da identidade.
O cena musical vai bem, sim, mas faltava alguém que estivesse tão distante do não-me-toques das cantoras frágeis, das marisas aos montes de muitos gestos e relevância dúbia, alguém tão distante delas, dizia, quanto da agressividade das moças de cara fechada e protesto inócuo, de ira autocomplacente, existencialista (como se cada dor ou alegria fossem maiores do que a dor e a alegria coletiva). Alguém que aliasse generosidade e autoridade para falar pelo coletivo.
É quando nos chega Tatiana Parra. Acompanhada por um formidável sexteto, ocupando um cenário amplo, de cores fortes e ecos de bijuteria (algo a ver com a fugacidade da questão humana, talvez, e se foi tal a intenção o alcance é pleno), vestida com o cuidadoso despojamento que instrui a magia do palco (e o palco é representação, vamos lembrar), Tatiana alinhavou o repertório primoroso em roteiro de enorme inteligência, coerente, contundente, pleno de significados, roteiro em que – sim, afinal! – o todo é maior do que as partes que o integram: porque Tatiana traçou a narrativa como quem junta palavras com habilidade de criar poema.
Palco é bicho traiçoeiro que pode embelezar ou enfear os feios e os belos. Tatiana é bela e fica deslumbrante, ocupando a integridade da cena, centro absoluto da atenção, ímã; se os músicos trabalham para ela, que resume o espetáculo, ela chama a atenção do público para eles, que podem ser indivíduos no coletivo (e essa é uma habilidade, ou preocupação, de poucos). Tatiana é graciosa, leve, mas ao mesmo tempo fortíssima, dona absoluta do espaço que ocupa, consciente de cada gesto, cada sílaba, cada nota – as palavras pronunciadas com perfeição, sempre inteligíveis, as letras ampliando seu significado, as notas exatas, a perfeita noção de tempo, as divisões intrigantes e reveladoras. Um universo de leituras se abre a cada canção, efeito mágico permitido aos grandes artistas.
Entre a suavidade e a contundência ela trabalha cada matiz, soltando o vozeirão (nem todo mundo sabia que Tatiana Parra tem vozeirão) sem pejo, porque está ali falando de suas verdades e verdades precisam ser ditas vigorosamente. O mote do show é Brasil, diversidade, a questão da brasilidade surgindo mesmo quando não era intenção clara do autor da canção (como é bom um bom roteiro!). E os autores são os meninos da nova safra – Dani Black, Pedro Viáfora, Pedro Alterio, Tó Bradileone e outros – e os medalhões – para concentrar numa canção só o conceito do espetáculo, ela desencavou o magnífico e esquecido Testamento, de Nelson Ângelo e Milton Nascimento: “Na reserva desse índio/ Clamo forte por um rio/ Soprem meus sentidos/ Pela vida de meu filho/ Cuidem bem de minha casa/ Tão cheia, meninos/ Tomem conta de aquilo tudo/ Em que acredito”.
É de se acreditar numa cultura capaz de dar à luz Tatiana Parra. É de se ter certeza de que Tatiana Parra estabeleceu um divisor de águas. Não será mais possível assistir a qualquer espetáculo de música sem pensar na excelência que ela nos oferta. Depois do show do Sesc Pompéia começou tudo de novo. E começou melhor.

25 comentários:

  1. Se é para aliar generosidade e autoridade para falar do coletivo então estaremos juntos Mauro! mas ainda não conheço o trabalho da Tatiana Parra, mas comentado dessa maneira por vc há que ter talento
    e começar melhor é grande responsabilidade,
    já fico esperando pela fôrça da presença dela

    eu volto!

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  2. é isso mesmo - traduziu os sentimentos e as sensações com maestria! que lindo jeito de escrever
    modestamente escrevi minha impressão também, passa lá se tiver um tempo www.nomundareu.blogspot.com
    beijos

    Ritamaria

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  3. Que bela maneira de inaugurar um blog, Mauro Dias.
    Eu fui um dos privilegiados que estavam no SESC Pompéia ontem. E tenho certeza de que poderemos assistir novamente esse espetáculo impecável de Tatiana Parra. Ela estava linda, leve, plena... inteira!
    Abraço.
    Tadeu

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  4. Lindo!!! Você expressou tudo o que gostaríamos de dizer. E deixou com água na boca aqueles que não puderam vê-la desta vez...
    Bjo no coração
    Adriana Godoy

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  5. É Mauro tá chegando uma nova revolução com esta safra que você citou e se tinha algo a falar sobre a Tati Parra você falou... e disse! Obrigada

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  6. Olá Mauro
    Essa crítica tão generosa me deu vontade de conhecer a moça. Será que ela vai se apresentar no Rio de Janeiro?
    Beijos
    Ana Terra

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  7. Eu tô cheia de orgulho alheio hoje. Tô orgulhosa da Tati, dos músicos todos que participaram do show, da direção, do figurino, do cenário, da maquiagem, do roteiro, da iluminação, do repertório e agora tô orgulhosa docê, Mauro, com esse texto arrasador. Quebrou tudo !!! Lea Freire

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  8. pois é, Mauro tem esse jeito de escrever : a gente quer ver, ouvir, saber mais...eu conheço a Tatiana, ela é preciosa...logo logo quero ouvir o cd! e de quem é a direção do show ?

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  9. Ola Mauro,

    agradeço em nome da Borandá pelo seu texto maravilhoso e pela presença no show da Tati.
    Nossa responsabilidade agora é fazer este show circular no Brasil e pelo mundo, e com certeza este seu post irá nos ajudar bastante.
    Estamos em uma cruzada para que as pessoas percebam o quão precioso é o patromônio da Musica Brasileira, do passado e do futuro, e acredito que a Tatiana de certa forma fez uma conexão entre estes 2 universos que na realidade são um único.

    Borandá!

    Abraços,

    Fernando Grecco
    fernando@boranda.com.br
    (11) 7257 5557

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  10. Que bom que existe uma Tatiana Parra. E que bom que existe um Mauro Dias pra descrever com tanta sensibilidade, conhecimento de causa e categoria o surgimento dela, em disco e palco. Se o CD e o show da Tatiana são algo a serem muito celebrados, a volta dos textos do Mauro ao alcance dos nossos olhos é uma das melhores notícias dos últimos tempos, tão carentes de análises com olhos, ouvidos, inteligência e coração como os dele. Juca Novaes

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  11. Este comentário foi removido pelo autor.

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  12. Mauro Dias, é um prazer enorme ler seu blog e o depoimento sobre esse show magnífico da Tatiana Parra. A exaltação desse momento incrível, não tem exageros. E fica muito fácil concluir porque também tive o privilégio de estar por lá na quinta-feira. Os que não foram, ficam com esse ótimo retrato do momento, um retrato forte, fiel e verdadeiro. Mas nada substitui a sorte de ter vivido esse momento. É noite para lembrar pela vida toda. Isso é. É muito bom ver (ou ler) o retrato, tendo vivido o momento. A sensação vem toda na cabeça, nos olhos e na alma. Que a Tati seja sempre feliz nas escolhas.

    Abraços,
    Rogerio Santos

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  13. Mauro querido… Eu e todos que participamos do show estamos muito emocionados com o texto! Eu nem sei descrever, sinto um misto de alegria, alivio, libertação, mas também um aumento enorme de responsabilidade… Saí de lá com muitas ganas de seguir estudando, compartilhando, e buscando, cadA vez mais...Quero dizer mil vezes o nome de todos os responsáveis por aquele momento mágico, pois se eu estive tranquila e consegui transmitir algo, foi graças a eles: Vanessa Bruno (dir.), Maria Fernanda Filardi (cen.), Paloma Villas Boas (fig.), Tita Freire (maq.), Silvestre (luz), Rodrigo (som), Conrado Goys (vl e guit), Thiago Rabello (bat.), Serginho Carvalho (bx), Felipe Roseno (perc), Zé Godoy (pno), Teco Cardoso (fl/sax) e Andrés Beeuwsaert (pno), a benção de Marcelo Mariano e o apoio fundamental da Borandá (Fernando, Vanessa, Paulo, Silvio e Ale). (cont.)Mauro, muito obrigada pelas palavras. Concordo contigo: confio na solidez de nossa cultura, que vem gerando Giana Viscardi, Veronica Ferriani, Tó Brandileone, Dani Gurgel, Chico Pinheiro, André Mehmari, Fabio Barros, Rafa Barreto, Fabio Cadore, Manu Maltez, Antonio Loureiro, Joana Queiroz, Erika Ribeiro, Alexandre Andrés, Mariana Nunes, Kristoff Silva, Iara Rennó, Céu, Ricardo Barros, Vinicius Calderoni , Dani Black, Pedro Altério, Pedro Viáfora , e tantos outros contemporaneos que me servem de alimento artistico diariamente!Beijos a todos!!

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  14. é isso, mauro. falou tudo.

    boa!

    bjo,

    tó.

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  15. Lindo texto, lindo show, viva o blog! Viva a Tati! Viva a Borandá! Tanta gente e tanta coisa pra se comemorar. Mauro, que bom ter vc escrevendo de novo. Tati, que linda msg. Porta-bandeira linda.
    Com carinho, beijos, Ilana.

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  16. ILANA linda e seu Bangue!!! Sua mensagem me deu vontade de continuar a lista... :> MARCELO PRETO PODEROSO!!!! (QUE CANTOU NO DISCO E NO SHOW E NAO COLOQUEI NOS CREDITOS ACIMA, QUE FEIO!!!!!!!!!), Cae Rolfsen, Rita Maria, Solange Sá, Danilo Moraes, Ricardo Teté, Thalma de Freitas, Luciana Alves, Roberta Sá, Hamilton de Holanda, Juliana Kehl, Demetrius Lulo, Wagner Barbosa, Paula Mihran, Ricardo Herz, Andre Caccia Bava, Diogo Poças, Karina Buhr, Andréa Dias, Lupa Mabuze, Tchello Palma, ... putz, tem muito Sao Paulo, e o Brasil é grande aaaaaaaaaaaaaaaaaa!

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  17. Olá,
    Infelizmente não fui ao show, mais estou começando a ouvir e explorar o “CD Inteira” e gostaria de comentar o extremo bom gosto musical como também escolha das músicas e dos compositores.Confesso que fiquei "chapado" ao ouvir "Bandeira" e "Vento Bom", quem conhece o Sergio Santos e o André Mehmari sabe que não é nada fácil aquele monte de acorde modal que eles colocam na música, mais a moça tirou de letra .
    Na canção"Sabiá", ela conseguiu deixar a música ainda mais divina com uma interpretação perfeita.
    Bem agora com licença, pois vou colocar o meu head-fone e dormir ouvindo esse maravilhoso “CD-Inteira “da Tatiana Parra.
    Ps. o Teco Cardoso arrebenta no Sax soprano e Flauta baixo....
    sds.
    William Silva.

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  18. Gostei, como sempre gosto, das suas palavras.
    Divulguei!

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  19. Caro Mauro,
    fiquei muito feliz com a criação do teu blog. Vida longa pra ele e muita saúde pra voce!
    Abração,
    Mauricio Carrilho

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  20. Bem-vindo ao clube dos blogueiros, caro colega. Vai ser sempre um prazer ler seus textos e acompanhar sua visão do vasto mundo musical. Abs, Mauro Ferreira

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  21. Grande Mauro ! É fundamental a tua presença, a tua escrita e principalmente a tua honestidade com as palavras.
    Grande abraço
    Luiz Carlos Bahia.

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  22. Mauro adorei o blog. Quando será o próximo show da Tatiana Parra? Só de ler o seu texto já nos apaixonamos por ela! Bjs, Lily

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  23. ADOREI o texto!
    "O cenário da canção brasileira é muito bom (gosto de dizer que a cultura vai bem, quem vai mal é a indústria cultural – e a indústria cultural que se dane)..." Este é Mauro Dias. Sempre exato, honesto e caloroso ao mesmo tempo!TATIANA, pode ficar em "estado de Graça", porque foi Mauro Dias quem falou!Parabéns!!!
    Mauro, tava fazendo falta...benvindo. Vamos acompanhar sempre!Abraço/Marisa Viana

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